Crónicas Oncológicas
Eu sou eu e as minhas circunstâncias
16/06/2026
No dia que fiz o último tratamento de radioterapia só consegui sentir.
Sentir emoção,
Sentir alívio,
Sentir medo,
Sentir ansiedade.
Nos três dias seguintes pensei que andava nas nuvens, observando o mundo cá em baixo, uma mera observadora da vida real, vivendo uma vida que nem sabia se vivia.
Hoje, pergunto a mim mesma quando deixarei de me sentir num mundo à parte.
Os sintomas secundários não pararam nem desapareceram. Quer os da quimioterapia, quer os da radioterapia.
O apetite não voltou, antes desapareceu mais.
As unhas pioraram. Descolaram e estão pretas/esverdeadas. Tanto as das mãos como as dos pés.
O cansaço continua fazendo tremer as pernas ou esgotando a paciência e a vontade.
O cabelo continua a crescer a passo de preguiça dorminhoca.
O pêlo do corpo poupa-me a uma depilação cuidada mas começa a acordar uma comichãozinha irritante. Excepto no buço (bigodinho) que já incomoda.
O cérebro continua meio emperrado, deixando-me abandonada frequentemente e criando situações irritantes para mim mesma.
A pele, ahhhh a pele..... não facilito mas mesmo assim.... nas costas das mãos e nos antebraços f**a grossa, dura, e vermelha, se coloco hidratante poucas vezes. Três vezes ao dia é o mínimo que ela pede.
A sede ataca noite e dia, lembrando-me que a hidratação continua a ser necessária.
É isto. Os tratamentos acabaram, mas o corpo continua a gritar que foi ferido e agredido.
Será tudo isto "normal"? Alguém pode partilhar comigo o que sentiu quando acabou os tratamentos?
A carrinha parou logo a seguir à passadeira que eu tinha acabado de atravessar.
Ouvi um Dona Mariaaaa.....
Olho para trás e vejo a D. Maria (também) a sair tão apressada da porta do lado do passageiro que quase cai, e precipita-se a atravessar a rua (fora já da passadeira). Corre para mim e pergunta-me ansiosa: como está?
Depois de uma troca de palavras breve caímos num abraço apertado.
Um abraço com sabor a sentido carinho, um abraço espontâneo de quem sabe que não é preciso mais.
Palavras sem «déjà vu». E uma despedida que me deixa os olhos brilhantes:
- Não se deixe vencer. Pense em mim. Eu estou consigo.
E caímos em mais um abraço, alheias ao mundo que nos rodeia, aos olhares distantes ou próximos.
Ela volta para a sua carrinha, atravessando novamente a estrada fora da passadeira alguns metros, deixando-me parada a confirmar a sua chegada à carrinha, sã e salva.
Eu, volto à realidade ouvindo a tua voz a meu lado, enquanto a tua mão procura a minha... Esta minha Maria... Esta minha Maria é sui generis. Seguida de uma ligeira gargalhada.
09/06/2026
- Porque andas sempre com um lenço na cabeça, agora?
Olhei para a carinha infantil de lindos olhos azuis, e cedi...
- Porque estou a fazer uns tratamentos que me fizeram cair o cabelo.
O olhar, mais do que a expressão, ficou sério.
Mudo.
E ouço a voz da amiguinha do lado dela:
-Ahhh! Acho que já sei porquê ...!
Olho para a delicada menina de longos cabelos loiros e encontro uma expressão séria de quem sabe mas não diz nada.
- A sério? Não tens cabelo?
- Ah minha querida, não te preocupes. Vai crescer. É só um tempinho.
A carinha séria e preocupada, aqueles olhos azuis de repente ensombrecidos fez-me querer levar a conversa com bom humor mas a voz não me saiu.
Sorri.
E ela abraçou-me com um carinho único de empatia infantil.
- Então? Abraça-a!! - diz ela para a amiguinha.
E recebo um segundo abraço carinhoso.
Sinto um nó na garganta e fujo delas com a desculpa que tenho de ir para a minha sala de trabalho.
As crianças... Com a sua franqueza espontânea que nos deixa sem palavras...
08/06/2026
A iniciar a última semana de radioterapia:
- condições físicas: muito razoáveis
- humor: péssimo
- estado psíquico: medo, ansiedade, saturação, tudo bem embrulhado num fingimento convincente para quem olha e não vê.
Hoje fui para a nona sessão de radioterapia num estado de espírito tal que cada passo que dei ao longo dos corredores deve ter f**ado gravado naqueles pisos, para os próximos 10 séculos...
A espera de quinze minutos para ser chamada foi tormentosa o suficiente para me encher os olhos de lágrimas e o peito apertado de vontade de fugir da realidade que está a ser o meu dia a dia desde há mais de meio ano.
Algo deve ter transparecido no meu rosto pois a equipa de técnicas da radioterapia, após a troca de cumprimentos normal de receção, e após uns segundos de silêncio, propôs-me pensar na solução de uma charada enquanto fazia a sessão de rádio.
4+4+4=12 certo?
utilizando outros três algarismos iguais entre si faça uma soma cujo resultado seja 12.
E não é que a sessão passou muito mais rápido do que as anteriores oito?
Não consegui encontrar a resposta e depois de terminar, já arranjada, voltei atrás para pedir a resposta e... não só recebi a resposta como trouxe uma outra charada para resolver. Chamaram-lhe trabalho de casa...
E de repente a nuvem negra que se tinha abraçado a mim durante os últimos dias, desfez-se... evaporou-se... e o meu céu ficou limpo... com uma charada em letras brancas de nuvem leve de Verão:
- Metade de 12 quanto é?
- 6 - respondi eu
- Sabe uma coisa? Também pode ser 7! Vai levar este trabalho de casa, e amanhã queremos a resposta, ok?
04/06/2026
Imunoterapia — Como o Sistema Imunitário se Tornou uma das Armas Mais Poderosas Contra o Cancro
Durante décadas, o tratamento do cancro assentou sobretudo em três pilares: cirurgia, radioterapia e quimioterapia.
💥 Depois surgiu uma quarta revolução.
Uma revolução tão importante que valeu o Prémio Nobel da Medicina em 2018.
Chama-se imunoterapia.
Hoje, milhares de doentes em todo o mundo estão vivos graças a tratamentos que praticamente não existiam há quinze anos. Doentes com melanomas metastáticos, cancros do pulmão avançados e muitos outros tumores que, durante muito tempo, eram considerados quase uma sentença de morte.
🤷♂️ Mas existe um problema.
Muitas pessoas saem da consulta de oncologia sem perceber exactamente o que é a imunoterapia.
Sabem apenas uma coisa:
"Vou fazer imunoterapia."
Neste artigo vamos explicar tudo de forma simples.
Sem complicações. Sem palavras incompreensíveis. Sem simplif**ações erradas.
💉 Afinal, O Que é a Imunoterapia?
Para perceber a imunoterapia, é preciso perceber primeiro uma coisa.
O seu sistema imunitário já combate o cancro todos os dias.
Todos os dias surgem células anormais no nosso organismo.
E todos os dias o sistema imunitário identif**a muitas delas e elimina-as antes que se transformem em problemas sérios.
O nosso corpo possui verdadeiros "soldados especializados" chamados linfócitos T.
A missão deles é simples:
Encontrar células perigosas. Destruí-las.
O problema é que alguns tumores aprenderam a esconder-se.
E é precisamente aqui que a imunoterapia entra.
🤬 O Cancro Aprende a Enganar o Sistema Imunitário
Imagine que um ladrão entra num banco.
O sistema de segurança detecta-o.
Mas, antes de ser preso, o ladrão mostra um cartão falso que diz:
"Funcionário autorizado."
Os alarmes desligam-se.
O tumor faz algo semelhante.
As células cancerígenas desenvolvem mecanismos que enviam sinais falsos ao sistema imunitário.
Esses sinais dizem, na prática:
"Não sou perigosa."
Resultado?
Os linfócitos passam ao lado sem atacar.
O tumor continua a crescer.
🔬 O Que Descobriram os Cientistas?
Durante muitos anos os investigadores tentaram perceber porque motivo o sistema imunitário falhava perante certos tumores.
Foi então que descobriram algo extraordinário.
O sistema imunitário possui travões naturais.
Esses travões existem para evitar que as defesas ataquem órgãos saudáveis.
São fundamentais para prevenir doenças autoimunes.
Mas alguns tumores aprenderam a usar esses travões a seu favor.
Os dois mais importantes chamam-se:
PD-1 / PD-L1
CTLA-4
É aqui que nasce a imunoterapia moderna.
📛 PD-1 e PD-L1 Explicados
Imagine um carro.
O sistema imunitário é o motor.
O PD-1 funciona como um pedal de travão.
Quando esse travão é activado, os linfócitos reduzem a sua actividade.
Algumas células cancerígenas apresentam uma proteína chamada PD-L1.
Quando PD-L1 se liga ao PD-1, acontece algo semelhante a isto:
"O tumor carrega no travão do sistema imunitário."
Os linfócitos deixam de atacar.
🎯A imunoterapia anti-PD-1 ou anti-PD-L1 bloqueia essa ligação.
O travão deixa de funcionar.
Os linfócitos voltam a atacar o tumor.
É um conceito brilhante pela sua simplicidade.
A imunoterapia não mata directamente o cancro.
Ajuda o sistema imunitário a voltar a fazer aquilo que devia estar a fazer.
O CTLA-4 é outro travão.
Mas actua numa fase ainda mais precoce da activação imunológica.
Quando bloqueamos o CTLA-4, estamos essencialmente a permitir uma activação mais intensa dos linfócitos.
Foi precisamente o estudo destes mecanismos que levou ao Nobel da Medicina atribuído a James Allison e Tasuku Honjo.
Uma descoberta que mudou para sempre a oncologia.
💬 Porque é Que Toda a Gente Fala do Melanoma?
Porque o melanoma metastático é uma das histórias mais impressionantes da medicina moderna.
Há cerca de quinze anos, muitos doentes com melanoma metastático tinham prognósticos extremamente reservados.
As opções terapêuticas eram limitadas.
A sobrevivência a longo prazo era rara.
Com a chegada da imunoterapia, tudo começou a mudar.
Hoje existem doentes com doença metastática que permanecem vivos muitos anos após o diagnóstico.
Isto era praticamente impensável para muitos casos no passado.
Não signif**a que todos os doentes sejam curados.
Mas signif**a que a história natural da doença mudou.
E isso é extraordinário.
✋ A Imunoterapia Funciona em Todos os Doentes?
Não.
A imunoterapia não é um milagre.
Nem todos os tumores respondem.
Nem todos os doentes beneficiam.
Alguns têm respostas espectaculares.
Outros têm respostas modestas.
Alguns não respondem.
É precisamente por isso que a investigação continua a avançar a enorme velocidade.
Os cientistas procuram perceber:
• quem beneficia mais,
• quais os melhores biomarcadores,
• quais as melhores combinações terapêuticas.
🫁 Em Que Cancros é Utilizada?
Actualmente a imunoterapia é utilizada em vários tumores, incluindo:
melanoma,
cancro do pulmão,
cancro do rim,
cancro da bexiga,
cancro da cabeça e pescoço,
alguns cancros digestivos,
alguns cancros da mama,
linfomas,
entre outros.
A lista continua a aumentar.
Praticamente todos os anos surgem novas indicações.
🚽 Os Efeitos Secundários São Diferentes da Quimioterapia
A imunoterapia não costuma provocar os mesmos efeitos clássicos da quimioterapia.
Mas isso não signif**a ausência de toxicidade.
Como estamos a estimular o sistema imunitário, podem surgir fenómenos autoimunes.
O organismo pode começar a atacar tecidos saudáveis.
Podem surgir inflamações de:
• pulmão,
• intestino,
• fígado,
• pele,
• tiróide,
• hipófise,
• rins.
Felizmente, a maioria destas complicações é tratável quando identif**ada precocemente.
Por isso é fundamental comunicar qualquer sintoma novo à equipa de oncologia.
🌄 Estamos Apenas no Início
Talvez esta seja a parte mais impressionante.
Muitas pessoas pensam que a imunoterapia é o futuro.
Na realidade, já é o presente.
Mas continua também a ser o futuro.
Actualmente investigam-se:
√ vacinas personalizadas contra o cancro,
√ terapias celulares avançadas,
√ novas gerações de checkpoint inhibitors,
√ combinações com terapias alvo,
√ combinações com radioterapia.
A velocidade dos avanços é extraordinária.
📢 A Grande Mensagem
Se lhe disseram que vai fazer imunoterapia, saiba uma coisa:
Não se trata apenas de mais um medicamento.
Trata-se de uma estratégia completamente diferente.
Em vez de atacar directamente o tumor, ajuda o seu próprio sistema imunitário a reconhecê-lo e combatê-lo.
Uma descoberta que transformou a oncologia.
Uma descoberta que já salvou milhares de vidas.
E uma descoberta que continua a escrever alguns dos capítulos mais fascinantes da história da medicina.
👂 Agora queremos ouvir-vos.
Já fez imunoterapia?
Quando ouviu esta palavra pela primeira vez percebeu o que signif**ava?
A equipa explicou-lhe bem o tratamento?
Sentiu efeitos secundários?
Partilhe a sua experiência nos comentários. Muitas pessoas vão iniciar imunoterapia nos próximos dias e podem aprender muito com o seu testemunho.
OncoConsigo
03/06/2026
Este é um dos medos com o qual todos os doentes oncológicos têm de aprender a viver. E este não conseguiremos nunca eliminar...
A decisão sobre um tratamento oncológico vai muito além da bula e ou da explicação médica.
Quando perguntadas sobre o que influencia nas decisões sobre um novo tratamento, 97% das mulheres ouvidas pela Pesquisa Oncoguia disseram que poder “evitar a recidiva” (tentar impedir que o câncer volte) é sim um fator que conta muito!
O mesmo percentual destacou que também se preocupa em escolher um tratamento que as permita ter qualidade de vida ao longo da jornada.
👉 Esses dados mostram que as escolhas feitas pela maioria das pacientes não estão relacionadas apenas ao tempo de vida, mas também à forma como se vive.
A gente sabe que o medo da recidiva é real e que ele existe de muitas formas, como nos pensamentos do dia a dia, na dificuldade de relaxar, na hipervigilância com o próprio corpo e até nas escolhas relacionadas ao cuidado, não é mesmo?
E embora esse sentimento seja muito comum, ele não precisa ser vivido em silêncio!
🗨️ Conversar abertamente com a sua equipe de saúde sobre seus medos, dúvidas, prioridades e expectativas pode ajudar a tornar as decisões mais acolhedoras e alinhadas ao que faz sentido para você. A decisão compartilhada também passa por entender que qualidade de vida e saúde emocional são partes importantes do cuidado.
Por isso, além do tratamento escolhido, alguns hábitos podem contribuir para reduzir o risco de recidiva e promover mais qualidade de vida ao longo da sua jornada, como:
🔸 Praticar atividade física
🔸 Manter uma dieta equilibrada
🔸 Controlar o peso
🔸 Parar de fumar e de beber
🔸 Cuidar da saúde mental para lidar melhor com o medo e a hipervigilância
O medo da recidiva existe, e falar sobre ele também é uma forma de cuidado. E se precisar, o Oncoguia está aqui para informar, acolher e apoiar, ajudando a fortalecer seus próximos passos. 🩷
