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05/12/2025
Santa Bárbara de Iansã
Cleo Agbeni Martins
Acordei do sonho vermelho e branco lembrando que era 4 de dezembro.
A Bahia dormiu dentro de mim.
Via, do alto, a procissão de Santa Bárbara serpenteando
imensa, sempre inédita quando se sonha.
O povo da Bahia era um mar que se dobra em outro mar.
Cheio de fé e cheio de axé, testemunhando, mais uma vez, que o coração une e faz a síntese.
Quem separa é a mente, ao se deixar conduzir por preconceitos que são apenas poeira.
Lembro-me de São Paulo, eu ainda quase menina e de Ebomi Otacília de Ogum da rua Almeida Torres, 70, na Aclimação.
Todo 4 de dezembro ela celebrava Iansã.
Eu via a rua paulistana se transformar, como se o vento tomasse forma no meio dos prédios e ônibus elétricos.
No sincretismo brasileiro, costuma-se dizer que Santa Bárbara é Iansã.
Mãe Stella, em 1983, combateu: Santa Bárbara não é Iansã.
E estava certa.
É um espírito de luz, uma bem-aventurada que subiu aos altares da Igreja há séculos; martirizada pelo próprio pai por professar sua fé cristã.
Iansã — cujo nome nasce da aglutinação yorubá Ìyá mésàn-an, “A Mãe dos Nove” — é Orixá. É Oyà.
Senhora dos ventos, das tempestades, das mudanças repentinas, das brisas e das rajadas que transformam destinos e escrevem biografias.
Mas Santa Bárbara…
Ah, Santa Bárbara é de Iansã.
Carrega em si a coragem da Mãe dos Nove Filhos. Dos nove céus. Das nove hostes celestiais.
Carrega o fogo, o enfrentamento, o poder de defender o próprio caminho, mesmo à custa da própria vida.
É filha por reconhecimento
de alma — e isso nenhuma doutrina desmente, porque é a verdade que o coração reconhece.
De manhã, no Pelourinho, acontece a grande missa campal.
Antigamente era celebrada na Igreja do Rosário dos Pretos, mas a multidão cresceu, e há anos é
campal, no tempo onde a brisa menina é protagonista e acolhe o povo de vermelho e branco-
— ou só de vermelho, a cor da valentia e dos mártires.
No toque dos clarins
a Bahia inteira escuta.
Encerrada a liturgia católica, começa a procissão.
A imagem que sai primeiro é a de São Jerônimo seguido por São Miguel Arcanjo, o guerreiro.
E, por fim, ela: Santa Bárbara, enfeitada, florida, conduzida por mãos que pertencem à Fé Católica e à Religião dos Orixás dentro do coração do Criador de tudo o que existe. Não falo de “dupla pertença” — isso é classificação arrogante contra a vida. Quem pertence, pertence. A pertença é a síntese do coração Infinito.
A procissão percorre ruas antigas.
E quando passa em frente ao Corpo de Bombeiros, a sirene se abre para ela.
Os bombeiros jogam água. É então que o vento se transforma e a rua responde:
— Epá hei! Epá hei!
Saudação de Iansã, Àquela que governa os ventos e reconhece, nesse dia, sua filha mais valente:
Santa Bárbara: a sua Barbinha.
Iyá Cléo Agbeni Martins
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